Economia brasileira ‘ignora’ a piora da pandemia e PIB pode crescer até 4,5% em 2021

O impacto do recrudescimento da pandemia do novo coronavírus foi menor do que o esperado no início do ano e, agora, analistas do mercado financeiro começam a revisar para cima as projeções da expansão da economia brasileira em 2021. Os temores com a saturação do sistema de saúde, o aumento do número de mortes e a reedição de medidas de isolamento social — que levaram a previsões de recessão no primeiro semestre —, se dissiparam nas últimas semanas depois que uma série de resultados positivos indicaram a resiliência da atividade econômica em meio ao pior momento da crise sanitária. As novas estimativas indicam alta de até 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, minimizando parte das perdas geradas pelo tombo histórico de 4,1% em 2020. Os números são mais otimistas do que os do governo federal, que revisou a recuperação da economia para 3,5%. Já as fontes consultadas pelo Banco Central estimam que o PIB vai avançar 3,45%, segundo os dados do Boletim Focus. A vacinação continua sendo o grande desafio do país, que poderia crescer ainda mais caso houvesse maior tração na campanha de imunização.

A queda no isolamento social, a despeito da reedição de medidas para tentar diminuir o quadro de infecções, é apontada como o principal fator para as revisões mais otimistas. Dados do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado a prévia do PIB, mostraram alta de 2,3% da economia no primeiro trimestre, enquanto o Monitor do PIB, divulgado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), revelou avanço de 1,7%. Os números mostram que a economia se manteve aquecida na virada do ano, quando veio com o impulso de 3,2% do PIB no quarto trimestre de 2021. Para Carlos Kawall, diretor da ASA Investments e ex-secretário do Tesouro Nacional, esta soma de fatores deve fazer a economia brasileira encerrar o ano com alta de 4,5%. “É uma história de surpresas positivas. O PIB do quarto trimestre nos surpreendeu e jogou o carrego da economia lá para cima.” O ritmo de crescimento do primeiro trimestre deve se expandir para o período de abril a junho e reforçar a retomada da economia com mais robustez no segundo semestre. “Estamos vendo uma alta de 0,4% no primeiro trimestre e 0,1% no segundo. Já para o terceiro e quarto, projetamos uma alta de 1% cada”, diz Kawall.

O otimismo nas revisões também é impulsionado pela disparada dos preços de commodities no mercado internacional, puxada principalmente pelo minério de ferro e pela soja. Analistas também apontam a “poupança forçada” das famílias em meio as restrições, além da manutenção dos investimentos em setores fundamentais para a economia brasileira, como a construção civil. O novo cenário levou a XP Investimentos a revisar a alta do PIB para 2021 de 3,2% para 4,1%. Rodolfo Margato, economista da instituição, também aponta a capacidade dos setores em se reinventarem após mais de um ano de pandemia. “Algo similar pode ter acontecido com as famílias. A utilização de canais virtuais para rotinas de trabalho e transações comerciais são exemplos nesta direção”, afirma. Com o otimismo mais contido, o Credit Suisse alterou a estimativa para a recuperação neste ano para avanço de 4%, ante 3,6% previsto anteriormente. Segundo a economista-chefe do banco, Solange Srour, a mudança veio depois de os indicadores apontarem que o fim de estímulos do governo, como o auxílio emergencial, não paralisou as atividades da forma que estava previsto inicialmente. “O dados econômicos para abril já reforçam o cenário positivo para a economia, com apenas um leve impacto do aperto das medidas de distanciamento social ao longo do mês”, afirma.

O resultado do PIB do primeiro trimestre será revelado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1º de junho. Para Kawall, a revisão das expectativas antes da divulgação oficial corrobora a mudança do consenso geral para a economia. “Não é usual fazer isso poucas semanas antes de sair o dado de um trimestre. O fato de isso acontecer é porque já está evidente, salvo enorme erro, que o resultado será bom, e que depois se fazem os reajustes”, afirma. O clima poderia ser ainda melhor caso o país tivesse avançado na vacinação contra a Covid-19. Na análise da XP, “há chances razoáveis de um crescimento ainda mais forte”, mas riscos, como a pandemia, devem ser monitorados. A expectativa da ASA já leva em conta um novo ciclo de restrições com a piora do número de casos nos próximos meses. “A vacinação está muito lenta e as coisas reabrem por causa da pressão dos setores. É um processo que tem a descompressão da ocupação hospitalar, há um relaxamento e depois acontece tudo de novo”, afirma Kawall. 

Para 2022, as análises estão mais contidas e apontam uma alta de aproximadamente 2%. O desempenho vai depender se as estimativas para este ano serão de fato alcançadas, além do clima político que o país se encontrará em um ano de eleição presidencial. Para Alexandre Schwartsman, da Schwartsman & Associados e ex-diretor do Banco Central, o acirramento da disputa deve pesar sobre a economia. “A polarização não ajuda a imaginar que o país tenha a capacidade de resolver os seus problemas, em particular das contas públicas”, afirma. O ano que vem também não deve contar com fatores que impulsionaram 2021, principalmente a recuperação pujante da economia no último trimestre, e também vai ser impactado pela normalização da taxa de juros do Banco Central, o que deve cercear a capacidade de consumo da população. “A economia brasileira seguirá andando para frente, mas em velocidade moderada. O acionamento da ‘quinta marcha’ depende de fatores mais estruturais, com destaque ao andamento da agenda de reformas”, diz o relatório da XP.

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