Copom define Selic com projeções de inflação em alta

Nesta semana tem reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom). Após algumas semanas considerando a possibilidade de um ajuste mais pesado na Selic, de 1 ponto percentual, o mercado agora endossa a elevação de 0,75, indicada pelo próprio Copom desde a última reunião e confirmada em várias ocasiões pela diretoria do Banco Central. Mas isso não significa uma melhora das projeções para a inflação, que é o grande foco do BC ao mexer nos juros básicos. A intenção da política de juros é calibrar a demanda para fazer com que a inflação caminhe para o centro da meta. No sentido inverso, temos as projeções do mercado para o IPCA, se afastando mais do ponto central da meta. No relatório Focus desta semana, a projeção média deste ano subiu para 5,04%. Só pra lembrar, o centro da meta é 3,75%, e o teto, 5,25%. E não vai ser difícil o índice passar do teto, já que os aumentos de preços continuam bem disseminados e, com o reforço de anúncios de elevações, também de preços administrados, como a bandeira vermelha da tarifa de energia, tarifas de transportes, remédios.

O que colaborou na últimas semanas para uma certa perda de ritmo dos índices de inflação foi a desaceleração dos preços dos combustíveis no atacado e no varejo. Mas, por outro lado, commodities também continuam elevadas no exterior, sustentando os índices de atacado em um patamar absurdamente alto, que ainda pode ter impacto no varejo, O mesmo relatório Focus trouxe a previsão de IGP-M em 14,32% este ano. No acumulado em 12 meses, por enquanto, está passando dos 30%. Aliás, o acumulado do IPCA, que é a referência da meta, pode bater nos 8% antes da virada do semestre, pelo fato de os índices mensais deste ano estarem muito acima dos verificados no mesmo período do ano passado. Só lá para o segundo semestre é que poderemos ter uma reversão desse movimento de alta na inflação anualizada. Mas isso ainda não indica um próximo ano tranquilo. O mercado já elevou a projeção do IPCA de 2022 para 3,61%, o que supera a meta que será de 3,5%.

Só que, em meio a toda essa piora do comportamento da inflação e das projeções, o que se percebe é que as pressões vêm muito da oferta e não da demanda, que ainda patina diante dos impactos da pandemia. E esse tipo de pressão não se esfria com juros mais altos. Juros que podem atrapalhar mais a retomada do crescimento. Até temos alguma melhora das projeções para o PIB deste ano, dado o desempenho ainda favorável registrado por vários indicadores de atividade em fevereiro e março. O mercado elevou a previsão de expansão do PIB em 2021 para 3,14%. Mas cortou a do ano que vem para 2,31%. Portanto, além de neste ano não se contar com a reversão da retração da economia do ano passado, que passou dos 4%, ainda se vê dificuldades para a atividade engatar um crescimento mais vigoroso.

Este cenário pode levar o Banco Central a ir com uma certa cautela na elevação dos juros básicos para poder acompanhar a evolução da inflação e da atividade econômica. O ajuste de 0,75 ponto percentual não é tão pequeno com a taxa atual em 2,75% ao ano. Sendo que se chegou a esse nível após o aumento também de 0,75 na reunião de março, que resultou na primeira alta da Selic desde 2015. O BC segurou a taxa num nível muito baixo, o máximo que pôde, justamente para não atrapalhar as condições de reação da atividade em meio à pandemia. Só que os juros baixos demais, incompatíveis com o cenário de riscos da economia, especialmente no que se refere às contas públicas, pode produzir instabilidades de mercado, que acabam se revertendo em mais inflação, como a alta do dólar. Tanto que, mesmo depois do inicio dos ajustes nos juros básicos, a curva de juros do mercado continuou acima das sinalizações do BC.

Para a Selic, o mercado prevê, na média, que chegue a 5,5% no final deste ano e 6,25% no ano que vem. Mas aguarda a indicação do Copom, que virá na reunião desta semana, para analisar se haverá uma normalização apenas parcial dos juros. Se for uma normalização total, a Selic pode chegar à faixa dos 6% ainda em 2021. Pandemia, desequilíbrio fiscal, impasses políticos, além do próprio comportamento da inflação dificultam a manutenção de juros mais baixos. O Brasil paga um prêmio — juros — baixo demais para os riscos que oferece. O investidor fica mais cauteloso, o que reduz o fluxo de capital externo, até de internalização dos resultados da balança comercial, além de produzir maior volatilidade no câmbio e em outros ativos, como a curva de juros, o que também pesa no custo do crédito e no potencial de reação da atividade, independentemente do ritmo de alta da Selic.

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