Atuação do governo durante a pandemia pode manchar até a imagem das Forças Armadas

O Exército não esconde desconforto com o destino do ex-ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, na CPI da Covid-19. E isso se estende a outros militares que ainda prestam serviço à pasta, todos na mira de um bombardeio que não se tem ideia de onde vai chegar. Muitos oficiais estão envolvidos na gestão de Pazuello. O Exército teme por sua imagem, que sempre foi das melhores na sociedade brasileira. São tantos militares no governo que as críticas envolvem todo mundo. Por isso, as Forças Armadas, particularmente o Exército, estão fazendo forte pressão no presidente Bolsonaro. Pior é que o ex-ministro e todos os oficiais que ele levou para o Ministério da Saúde estão nos planos de investigações do Ministério Público Federal (MPF), do Tribunal de Contas da União (TCU) e da própria CPI.

Pazuello e seus ex-auxiliares são acusados da demora na aquisição das vacinas contra a doença e também do incentivo à população para usar medicamentos ineficazes no enfrentamento da Covid-19, como a cloroquina. Soma-se a isso a gravidade da falta de controle de oxigênio nos hospitais e dos medicamentos necessários para a intubação de pacientes. A atuação de Pazuello e dos oficiais do Exército no Ministério da Saúde é considerada um desastre em muitos casos e uma omissão completa em outros. São casos comprovados em documentos e em declarações públicas durante a pandemia. Chegou-se a um ponto em que a incompetência explodiu, um caminho sem volta. Mas, afinal, quem colocou o general no ministério? Por enquanto, os militares acompanham os trabalhos da CPI mantendo certa distância, mas não escondem a preocupação com danos significativos à imagem das Forças Armadas e isso não pode acontecer. Em outras palavras, os oficiais dizem que não dá certo colocar militar no lugar de civil. Cada um no seu lugar.

Já se sabe que os militares que vão depor na CPI estão sendo preparados para isso. Preparados para quê? Para mentir? O ex-ministro Eduardo Pazuello vai falar na quarta-feira, 5, e o clima é tenso. Tornou mais ainda depois que o general foi fotografado sem máscara num shopping e teve a atenção chamada pelos funcionários. Referindo-se à máscara, Pazuello chegou a perguntar: “Onde se compra isso aí”? Como ex-ministro da Saúde, ele deveria saber que estava incorrendo num erro ou deboche. Ser um ex-ministro tem um significado que não pode ser ignorado, seja por quem for. Já há grupos especializados no governo que treinarão os oficiais para os depoimentos dos militares que trabalharam com Pazuello. Pelo menos 30 oficiais militares ocuparam altos cargos no Ministério da Saúde.

O discurso atual das Forças Armadas é de cautela, até porque o governo já providenciou medidas de proteção a Pazuello, que tem viajado com Bolsonaro, para não passar a ideia de que o general está desamparado. Fora isso, a CPI já enviou requerimentos ao Ministério da Defesa para ter conhecimento da participação do Exército na compra e fabricação dos medicamentos ineficazes contra a Covid-19, caso da cloroquina. A CPI quer saber se o Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército foi utilizado para fabricar esses remédios. E enquanto a crise da Covid-19 se agravava, matando milhares de brasileiros, o Ministério da Saúde só divulgava desinformações, nunca criou um núcleo sério de comunicação. Uma situação tensa que se acentua cada vez mais. Mas quando é que este país não está mergulhado em alguma situação tensa? O Brasil está sempre à beira de um abismo. Mas agora o problema envolve o Exército, e com Exército não se brinca, como dizia-se antigamente. É possível que ainda seja assim. Com o Exército não se brinca. Mas, pelo que tudo indica, a CPI da Covid-19 parece também não ser uma brincadeira. Vai ser jogo duro. 

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