Maradona morreu ‘abandonado à própria sorte’ por equipe de saúde, diz relatório de junta médica

Levantamento independente foi feito à pedido da Justiça argentina que investiga as circunstâncias da morte do ídolo do futebol. Diego Maradona posa ao lado de seu médico, Leopoldo Luque, no dia 11 de novembro de 2020, poucos dias após cirurgia na cabeça para a retirada de um coágulo no cérebro do ídolo do futebol
Assessoria de imprensa de Diego Maradona via AFP
O astro do futebol argentino, Diego Maradona, teria sido “abandonado à própria sorte” por sua equipe de saúde nos dias que antecederam sua morte, aponta um relatório médico independente feito à pedido da Justiça argentina divulgado nesta sexta-feira (30).
O campeão do mundo tinha problemas de saúde graves e se recuperava de uma cirurgia cerebral quando morreu nos subúrbios da capital argentina em 25 de novembro de 2020.
A junta médica responsável pela investigação das causas da morte do jogador considerou que Maradona recebeu um “tratamento inadequado, deficiente e imprudente”.
Em um documento de 70 páginas, os investigadores afirmam que Maradona começou a morrer pelo menos 12 horas antes do momento em que foi encontrado sem vida.
Segundo o relatório elaborado por 20 peritos médicos de diferentes especialidades, ele sofreu um “período prolongado de agonia”.
A análise dos últimos momentos de vida do jogador foi encomendada pela Procuradoria-Geral de San Isidro, na periferia de Buenos Aires.
A investigação tenta determinar se a morte de Maradona pode ter ocorrido por abandono ou homicídio culposo, quando não há a intenção de matar.
Acusação de negligência
Relatos de que Maradona foi abandonado pelos amigos e não recebeu o acompanhamento médico adequado após uma cirurgia foram encaminhados à Justiça argentina no início desta semana.
Ao menos sete pessoas são acusadas de negligência, entre eles o neurocirurgião Leopoldo Luque e a psiquiatra Agustina Cosachov, além de um psicólogo e dois enfermeiros.
Segundo a imprensa argentina, os áudios apresentados indicam que a saúde de Maradona era a menor preocupação da equipe que o acompanhava. A família também acusa o grupo tê-los afastado do jogador.
Morte de Maradona
O ídolo argentino morreu no dia 25 de novembro, aos 60 anos, sozinho em sua cama em uma casa alugada em um bairro privado ao norte de Buenos Aires, onde se recuperava após uma operação de um hematoma na cabeça, e onde ele supostamente estava com internação domiciliar.
O relatório da junta médica conclui que o capitão da seleção argentina campeã do mundo no México em 1986 “teria mais chance de sobrevivência” se tivesse tido uma internação adequada e em um centro de saúde polivalente.
“Levando em conta o quadro clínico, clínico-psiquiátrico e o mau estado geral, deveria ter continuado a sua reabilitação e tratamento interdisciplinar em uma instituição adequada”, insistiu a junta.
Os especialistas indicaram que Maradona “não estava em pleno uso de suas faculdades mentais, nem em condições de tomar decisões sobre sua saúde” no momento em que deixou a clínica de Olivos, onde havia sido submetido a uma cirurgia na cabeça.
Nos dias anteriores, o ex-astro do Napoli e do Barcelona havia insistido em deixar a clínica e se recusado a ser encaminhado para outro centro de saúde, segundo o seu médico pessoal, Leopoldo Luque, um dos investigados.
Entre as conclusões, a banca sustenta que “foram ignorados os sinais de risco de vida que apresentava” e os cuidados de enfermagem nestas últimas semanas “estão repletos de deficiências e irregularidades” e com falta de exames.
“A equipe médica assistencial representou plena e cabalmente a possibilidade do desfecho fatal em relação ao paciente, sendo absolutamente indiferente a essa questão, não modificando suas condutas e plano médico/assistencial traçado, mantendo as omissões prejudiciais acima mencionadas, abandonando ‘à própria sorte o estado de saúde do paciente’, acusam os peritos no relatório.
Os últimos dias
Maradona foi operado de um hematoma na cabeça no dia 3 de novembro. Pouco antes, em 30 de outubro, ele compareceu à comemoração de seu 60º aniversário com a saúde debilitada no estádio do Gimnasia y Esgrima, clube que comandava.
Naquele dia em La Plata, 60 km ao sul de Buenos Aires, foi a última vez que ele apareceu em um público aclamado por milhões de fãs em todo o mundo.
Testemunhas afirmam que ele sofria de dependência de álcool e psicotrópicos. Após sua aposentadoria, ele esteve várias vezes à beira da morte devido a doenças cardíacas e uso de drogas.
No processo judicial aberto pela morte de ‘El 10’, são investigados e, portanto, acusados a psiquiatra Agustina Cosachov, o neurocirurgião e clínico geral Leopoldo Luque e o psicólogo Carlos Díaz, além de um enfermeiro, uma enfermeira, uma médica coordenadora e um coordenador de enfermeiros.
As penas na Argentina para abandono ou homicídio culposo variam de cinco a 15 anos de prisão.
Sebastián Sanchi, que era porta-voz de Maradona, comentou à AFP que com este relatório “claramente o conselho (médico) está dizendo que pelo menos para eles as coisas não foram bem feitas”.
Em meio a recriminações e acusações pela atenção dispensada a Maradona em seus últimos anos, outro caso paralelo avança para resolver a disputa de herança entre seus cinco filhos, seus irmãos e o último representante legal do ídolo argentino, Matías Morla.

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