Classe dividida, tecnologia e falta de suporte das famílias: os desafios dos professores na educação híbrida

Passado pouco mais de um mês do início das aulas em boa parte das escolas do Brasil, principalmente nas particulares, já temos algumas lições aprendidas sobre a implantação da educação híbrida. Em um breve levantamento que fiz com professores, gestores e alguns pais, foi possível identificar os principais contratempos e desafios que surgiram após a implantação dessa modalidade de aprendizagem neste período de pandemia. Um dos grandes problemas que se apresenta é a diferença de recursos de um aluno para outro, assim como de escola para escola e de professor para professor. Alguns alunos têm mais acesso às aulas do que os outros, principalmente em função das condições socioeconômicas das famílias. Algumas escolas conseguem avançar mais do que outras e há professores com maior ou menor facilidade com as novas tecnologias, fundamentais para a mínima qualidade na educação remota e híbrida. 

O segundo problema, na maioria das escolas, é com os professores. De imediato, identificamos a dificuldade dos educadores em lidar com o cenário em que alguns alunos fazem atividades em casa e outros as desenvolvem na escola. Um número considerável de escolas adotou o modelo em que parte dos alunos tem atividades com os professores em sala de aula e a outra parte estuda em casa. Ou seja, enquanto uns têm a aula ao vivo, outros lidam com atividades remotas denominadas assíncronas (textos, vídeos gravados, roteiros de estudos, exercícios, etc.).  Essa divisão aumenta consideravelmente o trabalho do professor — praticamente duplica, visto que ele precisa dar conta de duas turmas ou atividades simultaneamente.

Outro modelo adotado por parcela significativa de escolas é o híbrido simultâneo. Nesse caso, o professor ministra aula para uma parte da turma na sala e transmite ao vivo essa aula, por meio da internet, para o restante, que está em casa. Isso também não é simples. O educador fica dividido entre dar atenção para os que estão em sala e para aqueles que assistem virtualmente. Também existe a preocupação com a transmissão, o ângulo da imagem, o som, a qualidade dessa transmissão e outros fatores de ordem tecnológica. Isso tudo estressa o professor e compromete seu trabalho e, consequentemente, o foco na aprendizagem dos alunos. É importante lembrar que temos crianças que praticamente vão quase todos os dias para a escola, principalmente porque os pais não têm com quem deixá-las em casa, enquanto outras não aparecem nem sequer um dia. Isso causa uma diferença muito grande na aprendizagem, nas questões socioemocionais e nos vínculos dos alunos entre si — e também com o professor, visto que alguns têm contato direto com o profissional da educação ao mesmo tempo em que outros estabeleceram o mínimo contato.

Também identificamos, conversando com professores e gestores que estão implantando a educação híbrida, a preocupação com os protocolos de saúde e de higiene. Isso faz com que o professor gaste um tempo precioso neste atendimento, o que de certa maneira também compromete a atenção e o foco nas questões de aprendizagem. Além disso, os educadores precisam lidar com diferentes comportamentos a respeito da pandemia. Os alunos, principalmente as crianças, tendem a se comportar de forma muito semelhante aos pais. Então, os professores se deparam com alunos influenciados por pais negacionistas, que não se preocupam e não têm muito cuidado com os protocolos, outros que seguem as normas e acordos e ainda aqueles que são extremamente radicais quanto aos cuidados com relação a higiene e distanciamento social.

A instabilidade e as mudanças promovidas pelas autoridades em relação à educação presencial também geram conflitos. Vimos que muitas escolas começaram a educação híbrida e, logo em seguida, voltaram ao ensino remoto. Essa gangorra de abre e fecha, ao que parece, vai permanecer por um bom tempo. Isso também dificulta o trabalho dos professores, já que o planejamento e as atividades desenvolvidas estão o tempo inteiro em alternância, dando imprevisibilidade, insegurança e, com certeza, comprometendo parcialmente a aprendizagem dos alunos.

Quando apresentamos um estudo como esse não estamos querendo, em hipótese alguma, desvalorizar, desmerecer ou desestimular a educação híbrida. Muito pelo contrário! Acreditamos ser fundamental que os alunos tenham o contato presencial, sempre que possível, com os professores e com outros alunos. E que, aos poucos, consigam voltar à sua rotina escolar. No entanto, o que pretendemos trazer aqui é a grande dificuldade que os professores estão encontrando para exercer suas atividades. Assim, é preciso que os sistemas educacionais, as escolas, os gestores e as famílias ajudem os profissionais da educação compreendendo suas dificuldades e os apoiando nesse momento tão difícil que eles vivem em suas jornadas profissionais.

Também é preciso melhorar as condições de trabalho, disponibilizando, se possível, alguns auxiliares para que possam ajudá-los no desenvolvimento das atividades docentes, seja na preparação dessas atividades como também na execução. Estamos juntos aprendendo a fazer uma nova educação e só conseguiremos resultados se todos nós, pais, gestores, professores e dirigentes de sistemas, conseguirmos trabalhar em conjunto, desenvolvendo estratégias eficazes para ajudar os professores nessa difícil e árdua tarefa de ensinar em tempos de pandemia.

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