Pacote de Biden vai gastar mais US$ 2 trilhões; perigo é o tamanho do rombo nas contas públicas

O valor já era mais ou menos conhecido, US$ 2 trilhões nos próximos oito anos. Como os gastos devem ser feitos também. Obras de infraestrutura (como construção de pontes e estradas), tecnologia e energias limpas, com incentivo ao uso de carros elétricos e energia solar. Mesmo assim, o mundo econômico parou para saber mais do novo e ambicioso pacote do governo dos Estados Unidos, anunciado pelo presidente Joe Biden. Dividida em duas partes, a ação vai tentar, ao mesmo tempo, modernizar a economia e, gerando empregos e requalificando trabalhadores, atacar a desigualdade, que cresceu no país nas últimas décadas. A primeira parte, voltada para a economia, foi anunciada no último domingo, 4. Embora a previsão seja de que os gastos sociais do pacote só estejam detalhados no final de abril, houve esforço do governo para ficar nítido que o alvo é o combate à pobreza.

Na parte de infraestrutura, por exemplo, foram incluídas propostas como o fornecimento de água potável à população sem acesso. Pela pegada social, a iniciativa vem sendo comparada com o New Deal, a série de programas que reformaram a economia americana nos anos 30, criando o salário mínimo, as aposentadorias e o seguro-desemprego, entre outros. Dificilmente alguém vai negar que hoje existe desigualdade na economia americana, assim como há, e muita, por aqui. Mesmo nos países que possuem programas sociais mais robustos, como na Europa, a desigualdade é grande. Os governos aceitam isso como forma de recompensar as ideias inovadoras e o empreendedorismo.

O problema, na concepção do governo Biden, é que a desigualdade nos Estados Unidos passou do ponto, hoje refletindo um desequilíbrio de oportunidades, não só de renda. Mas um pacote desse tamanho é a solução? E o pacote ajuda ou atrapalha a economia? É o que alguns economistas se perguntam, assombrados com o tamanho dos gastos. Somada a primeira fase do pacote Biden, o governo americano se aproxima de gastos equivalentes a 40% do Produto Interno Bruto (PIB) do país desde as primeiras medidas de ajuda, no ano passado. Não são a mesma coisa, as despesas de 2021 foram para combater os efeitos da Covid-19. Mas o governo não tira o pé do acelerador mesmo com a economia normalizando.

O déficit do governo previsto para o ano, de 15%, é o maior desde a Segunda Guerra Mundial. E a dívida pública, chegando aos 106% no final do ano, também será maior do que aquela registrada no fim do conflito, até hoje a maior da história. Há o temor, replicado pelo mercado financeiro, de que tanto gasto leve a inflação mais alta e acabe prejudicando a economia. Mesmo assim, defensores das medidas de Biden dizem que não é gasto demais e que o aumento de impostos vai cobrir grande parte das despesas, evitando que a dívida suba demais. É uma grande aposta, como destacou a revista “The Economist”.

Se der certo, os Estados Unidos evitam a armadilha de ter inflação baixa e juros baixos, mas não crescer, como ocorre na Europa e Japão. Mas tudo pode acabar com a dívida subindo mais e mais, inflação alta  — se a economia aquecer demais — e o Banco Central, que deu apoio ao pacote, desmoralizado. O governo americano está pagando para ver. E, dados os números, pagando caro.

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